5 de nov de 2004

- Filha senta aqui que eu quero te contar a verdade sobre o bicho-papão.
- Mas mãe, eu já sou bem crescida! A senhora acha que eu ainda acredito nestas coisas?!
- Existe sim Ana, não vou te enganar. Estou falando de um monstro real, não aquele das estórias infantis. Agora senta e me escuta.
O bicho-papão às vezes parecer ser bizarro e hostil, mas consegue ser conveniente. É um ser lúdico; agradabilíssimo em certas horas e traiçoeiro quando é ferido. Seus olhos esbugalhados bisbilhotam a vida alheia e sua língua ferina é usada tanto para quem se deixa ludibriar quanto para “fuxicar” sobre o que vê. Ele se alimenta basicamente da essência, dos sonhos das pessoas.
- Como assim?! Um ser vil que se alimenta de sonhos? Isto não faz sentido pra mim...
- Querida, ele precisa se alimentar assim, pois ele próprio não possui sonhos, é uma necessidade. Seus próprios sonhos acabaram-se há anos. Sua história se perde quando a história da humanidade começa.
Bom, ele se aproxima aos poucos de você. Ele está no programa assistido; na revista lida; no “fora” levado; na amizade traída; na má educação dos pais. Quando menos se espera o bicho-papão leva seus sonhos embora. Adolescentes assim como você é alvo fácil. O monstro leva sua índole inocente e seus belos sonhos, fazendo do jovem idealista um adulto frustrado e pessimista. Não que isso o torne uma pessoa má, mas a torna mais prática. E a praticidade muitas vezes leva a um cotidiano monótono e fatídico. (Ah...)
Você não vive reclamando que sua irmã mudou contigo? Que ela já não acha graça nas coisas que vocês faziam juntas, que ela vive cansada e não bate mais aquele papo contigo na hora de dormir? Ou que ela acha bobo os seus planos para o futuro? Pois então, infelizmente o bicho-papão já se alimentou dos sonhos dela...
- Nossa, mas isso é terrível!
- Não é muito, querida. O espaço vazio é preenchido com novos conceitos e planos. A pessoa se torna mais “razão”, seus objetivos estão mais concretos e possíveis de acontecer. Além disso, ela permanece com algumas de suas características e adquire novos traços. Isso é praticidade. Mas o preço que se paga, ah é um triste fim. Você perde o brilho com que via a vida antes, e a cada vez que o bicho papão se alimenta de você, seu coração parece que se endurece e busca se proteger mais e mais de tamanha maldade.
- Mãe, eu não vou me deixar corromper! Quero ser livre e não vou deixar que este bicho chegue perto de mim! Eu não quero me tornar um cogumelo!
- Nem eu minha filha, nem eu. Mas adultos precisam existir.