9 de nov de 2004

O conto do Anjo menino

Definitivamente, estou ficando velha. Minha nossa, como posso ter envelhecido tanto?! Eu tinha muitos sonhos e pretensões... Onde tudo foi parar? Ah, eu não deveria ter permitido isso! Deixei-me levar pela rotina, o cotidiano agora pesa sob meus ombros. E como pesa!

- Espera que eu vou procurar a passagem cobrador!
Bom, vou me sentar ali...


Tudo em minha vida é o de sempre. Não sinto mais aquele fervor que eu sentia pelo meu marido, pela casa, pela nova vida. Tudo se tornou tão... Habitual. Ah, mas não naquele dia! O dia em que vi aquele doce rapaz...

Lembro-me como se fosse hoje. Tão tímido e atrapalhado... Encantador! Bastou ele entrar no ônibus para que a mulher que residia em mim desaparecesse. Fiquei sem reação.

Meu olhar faminto o deixou corado, mas mesmo assim fiquei observando até que finalmente ele se sentasse no banco a minha frente. Ficou disfarçando, mas percebeu que eu o notei. Ele lia seu livro de história, enquanto disfarçava seu olhar curioso para o banco onde eu estava... Enquanto isso, meu coração pulsava como nunca. Lindo... Seus cabelos castanhos ondulavam como os de um anjo menino... Seus belos olhos cor-de-mel se escondiam atrás dos óculos caídos sob o nariz. E seu jeito tímido... Ah, eu o queria para mim! Queria que ele me salvasse deste mundo terrível em que eu havia mergulhado... Senti paz em meu coração.

Era incontrolável um olhar para o outro, e ele vencia a timidez a cada vez que se virava para me observar. Eu olhava em seus olhos e me perdia... Senti vontade de falar, mas não era o melhor. A magia era que fazia o momento, e eu não poderia destruir a com palavras.

Uma hora meu destino chegaria, e desci do ônibus já com uma ponta de saudade.

Engraçado, ninguém sabe o que se passava pela minha cabeça, ou o que senti. Este é o meu segredinho, um dia fora do cotidiano maçante. Ele me fez me sentir renovada, desarmou-me, e não precisou de tanto. Tão doce... Minha vontade era de emaranhar meus dedos em seus cabelos, olhar em seus lindos olhos claros e dizer o favor que ele tinha feito a mim.

O favor? Sentir minha vida pulsar ao menos por alguns minutos.
Meu mundo pela paz que ele me causou!