3 de set de 2012

Mais uma

... E ela gostava dele desde que gostar era ruborizar ao ouvir seu nome.
Amor imaculado, sincero.
A moça colecionava histórias sobre seu amado e as contava para si mesma, como daquela cicatriz de bicicleta da 1ª série, ou do seu ardor pela professora de natação da 4ª série.
Sabia de seus lamentos, de seus amores e sucessos. 

Mas para o seu infortúnio ele mal sabia da existência da jovem. No excelso de seu interesse, ele sabia que havia uma pequena menina sardenta e melancólica em sua classe, e que ela sempre esteve lá.
Desafortunada, gastara seu nobre coração por tão pouco!
No entanto este era o seu contentamento, pois no fundo sabia que não podia avançar. Tornou-se incógnita, para não esvaecer.

Mas o acaso um dia lhe sorriu com um simples trabalho de química. Nada poderia ser melhor que isso; finalmente faria se fazer notada. 
- Qual é o seu nome mesmo?
- Anne...
Mas isso já bastava! Rebento coração, olhos marejados e júbilo. Sua felicidade não poderia estar mais completa... Bom, estaria se a coragem fosse sua aliada. O medo de perdê-lo era incrivelmente aterrorizador.
- Terminamos? Preciso ir, para o...
- Treino de basquete.
- Como você sabe?

O ponto alto de sua vida, a felicidade em si. Encantada e apaixonada. Ele... Bom, fez o trabalho de química com a sardenta do canto da sala, porque foi a professora quem formou a dupla, nada demais.

Ah, o tempo! Castiga, alimenta... E traz esperança. E por mais que ela se enganasse com outros corações, era pelo dele que ela aguardava a vida toda. A jovem atriz, como a vida lhe moldou, aprendeu a interpretar personagens, e esconder um pouco de si. E por mais que aquele (agora) jornalista estive longe daquele menino que tanto a encantara, seu coração batia, e reclamava saudade. 

... E sua grande estréia finalmente chegou. A sardenta 'Capitú' teria sua oportunidade no teatro, e viu neste sinal que seu (s) sonho (s) poderia (m) ser realizado (s). Pediu para alguns amigos em comum que entregassem os ingressos da peça para o seu querido, e que insistissem - ela não perderia esta chance.

Seus cabelos castanhos encaracolados caiam suavemente sobre seu colo; cintura marcada por um belo vestido de época, lábios cor de sangue - e a vontade de se entregar por completo à arte e ao amor.
Sua 'Capitú' era vistosa, provocante... E mortalmente linda.

Todos estavam lá... Menos o seu jornalista. Mas disso ela não sabia, pois a pobre menina estava em polvorosa com sua estréia. Pobre menina! A noite que seria, não foi e nunca mais será.
Ao final, a notícia fatídica. Algumas lágrimas tímidas escorriam em meio às parabenizações, e então a certeza de que sua vida agora tomaria outro rumo. Decidira não ocupar mais sua vida por um delírio, e então seu coração escureceu. A atriz seria sua forma de sobrevivência, em todos os sentidos. A arte de encenar, de amar e finalmente de se anular.

"De quem é mesmo a peça? Ah! Daquela sardentinha esquisita da nossa antiga classe? Ah cara, vai dar não, diz pra - como é mesmo o nome dela? Ah, esquece - diz pra ela que eu agradeço, mas que preciso fazer 'cerão' aqui na agência, caso complicadíssimo." ... E saiu de moto com sua garota, aquela 'sem açúcar, sem afeto' sem saber que esta noite poderia mudar o seu mundo - e o dela.